Voltei de uma ausência longa e o país está triste. Acompanhei as notícias, mas a dimensão do impacto só se sente estando aqui, no peso da vida das pessoas. As palavras mais ouvidas na comunicação social são ocorrências e prejuízos. Queria partilhar alegrias, sucessos e novidades, mas não é o tempo. O ambiente contagia-me e, em fase pré evento, faço listas mentais de tudo o que não pode correr mal.
Um dos aspetos importantes de estar há tantos anos na produção de eventos é irmos acumulando um banco de erros. Esses erros somam à lista de itens que não podem falhar no evento seguinte. Ficamos como falcões em modo parentalidade helicóptero, talvez o único momento em que esta seja aceitável.
Há uns anos uma equipa de um evento fez a sua parte e, no final, veio ter comigo.
– Correu tudo bem, o nosso trabalho ficou bom. O do som é que não.
– O som ficou mal?
– Sim, está péssimo.
– Quando se aperceberam disso?
– Logo no início.
Então o vosso trabalho não ficou bom. Ficou péssimo porque, sem som, o vosso trabalho de imagem não tem valor e estragaram-me o evento.
Disseram que não avisaram a equipa para não se intrometerem. Aqui é onde a ambição morre por falta de visão.
Voltaram a contactar-me meses mais tarde para apresentar propostas. Para eles não se passou nada. Para a equipa foi uma desilusão. Para mim, na altura, foi avassalador.
Num evento, como na vida, o resultado é sistémico. Não há nenhuma organização ou estrutura social que faça um bom trabalho boicotando o seu ecossistema. Isto é válido para pessoas, empresas, organizações e ambiente político.
Mil vezes alguém saliente e interventivo, que peque por excesso de zelo para que os ambientes floresçam. Tragam-me problemas, questionem, chamem a atenção. Eu agradeço.
